quarta-feira, 13 de abril de 2016

Erros

Capitalismo
Narcisismo
Zika
Etnocentrismo
Arcadismo
Guerra Fria 
Fome
Evolucionismo
Não tem jeito
Tá errado
Não é medo
É cinismo 

Falso abraço

Panelaço
Até homem no espaço
Estardalhaço
Morte em maço

Suástica no braço
Não tem jeito
Tá errado
Enforco Deus
E faço um laço

Cirrose 

Osteoporose
Câncer
Lepra
Esclerose
Não tem jeito
Tá errado
E denominam psicose

Granada

Pedrada
Nossa elite é blindada
Que piada
É feliz
Ou casamento de fachada?
Família sagrada
Tradição imaculada
Sedada
Abafada
Felicidade privada
Não tem jeito
Tá errado
E eu não posso fazer nada.

domingo, 3 de abril de 2016

Tudo bem.

-Oi, tudo bem?
-Tá tudo bem sim.
Tirando o fato de que a qualquer momento a Coreia do Norte pode atacar os Estados Unidos. Tirando o fato de que ser gay é ilegal na Líbia, na Etiópia e no Senegal. Tá tudo certo tirando o fato do meu olho não parar de latejar desde que assisti a “O Cão Andaluz”. E de eu sentir umas fisgadas no peito toda vez que vejo uma navalha. Tirando o fato de que em momentos aleatórios eu lembro que milhares de torneiras devem estar semi-abertas sem necessidade e que todas elas devem fazer aquele barulho que me dá agonia. Eu to bem apesar de as vezes ficar pensando em como a expressão “pensar no próprio umbigo” nao faz sentido porque literalmente ninguém se preocupa com o umbigo. O umbigo é uma parte do corpo super ignorada quando se consegue comer pela boca. As pessoas só aceitaram essa expressão sem nem questionar o sentido. Tá tudo bem, viu? Mesmo sabendo que eu nunca serei capaz de produzir todo o conteúdo que desejo de forma que ele seja acessível e honesto ao mesmo tempo. Tudo bem mesmo sabendo que a arte que me comove nunca comoverá até as pessoas mais intelectual e sentimentalmente próximas de mim. Tá tudo bem apesar dos Beatles serem considerados uma das maiores bandas de rock do mundo. Tá tudo bem apesar do movimento emo ter morrido. Apesar do meu cachorro estar doente e de eu negar que estou também. Tudo numa boa. Até tendo noção de que as pessoas tentam curar problemas causados por drogas com outras drogas. Tudo está bem mesmo eu sabendo que nunca conseguirei largar o fardo de viver sendo um clichê acompanhado de pequenas e pausadas doses de realidade que me impedem de reconhecer meu posto claro no ciclo da vida. Tudo está bem apesar da minha tendinite atacar toda vez que jogo totó e de que todo ano a Mata Atlântica vai desaparecendo. Tudo bem tirando o fato de que vai fazer um mês que eu não converso com a minha mãe. Tudo bem mesmo eu tomando um susto toda vez que um avião passa perto do meu apartamento achando que é um míssil. Nunca jogaram um míssil em Botafogo. Tudo bem. Tudo está bem apesar do zika vírus gerar crianças doentes e mães de crianças doentes. Tudo bem mesmo eu nunca tendo lido nenhum livro que me pediram na faculdade. Tudo bem apesar do meu pai pagar uma fortuna na minha faculdade. Tudo bem apesar de que se um dia eu for estuprada eu não vou poder abortar o filho do meu estuprador porque a bancada evangélica é a favor da vida. Tudo bem apesar de eu ter medo de ser estuprada toda vez que saio de casa depois das 18:00. 19:30 no horário de verão. Tudo bem apesar de sempre ser verão. Apesar de não fazer mais frio em Petrópolis e chover com mais força na Região dos Lagos. Tudo bem apesar de eu ter tentado me matar semana passada. Tudo bem apesar de eu ainda pensar em me matar. Tá tudo bem apesar de eu estar acompanhando cada um dos meus amigos lentamente se afastar de mim um a um sem eu poder fazer nada a respeito porque o que eu posso fazer se uma hora as pessoas simplesmente perdem interesse? Tá tudo bem apesar da minha prima ter depressão e eu sendo a única pessoa próxima dela com experiência no assunto não ajudar em absolutamente nada. Tudo bem mesmo que depressão não seja tratada como doença. Tá tudo bem apesar de eu vomitar pelo menos uma refeição por dia. Tudo bem apesar do meu sistema imunológico me sabotar diariamente. Tudo bem apesar de eu não enxergar direito por causa da pressão na minha cervical. Tudo incrivel apesar da minha cabeça não funcionar do jeito que eu queria que funcionasse. Tudo bem apesar de eu chorar no mínimo duas vezes por dia. Tudo está lindo mesmo sabendo que eu nunca atingirei as expectativas dos meus pais, que investiram absurdamente em mim. Tudo bem por ser injusto. Olha, tudo ótimo. Ainda que o consumo de carne animal seja inviável se quisermos manter o equilíbrio ecológico na nossa era. Ainda que pessoas na Índia comam ratos e pessoas no Leblon comam hambúrguer vegano de 50 reais. Tudo bem apesar de que 50 reais agora sejam 12 dólares. Tudo bem ainda que eu tenha encontrado o amor da minha vida e não tenha ideia de como lidar com isso por saber que eu nunca serei o suficiente pra ninguém e muito menos pra pessoa mais incrível que eu já conheci e vou conhecer. Tudo bem apesar do Grammy não ser justo. Do Oscar ser racista. Da Palma psicanalítica e da Copa, fascista. Tudo bem apesar das pessoas só entenderem 20% do que eu falo por eu não saber me expressar. Tudo bem mesmo eu não conseguindo terminar uma única frase sem antes duvidar da credibilidade dos meus pensamentos, sentimentos e opiniões. Tudo bem tirando o fato de eu achar que nunca saí realmente do efeito de LSD. Tirando o fato de terem me molestado e eu nunca ter conseguido falar com a minha família. Tá tudo bem demais. Tirando o fato de que ninguém liga pra se realmente está ou não. Tirando o fato de que devem existir milhões de pessoas iguais a mim e dessas mesmas pessoas não conseguirem se enxergar e perceber que elas não são as únicas que não estão bem. Tudo está maravilhoso apesar de que nessa vida se você não fez faculdade você é fracassado. E se você fez faculdade de um curso sem nome você também é fracassado. Tudo bem apesar das pessoas se sentirem no direito de ditar o que é fracasso baseadas em futilidades capitalistas e porcamente moralistas. Tudo bem apesar de que a morte é certa e mesmo assim quase todo mundo que eu conheço propositalmente se aliena no senso comum e se impede de experienciar o milissegundo insignificante dentro da pausa do ócio dos astros que é a vida humana. Tudo bem apesar de que eu vou morrer. Tudo bem apesar de eu me encontrar na premissa de que o único modo de eu ser genuína na minha mediocridade é não estando bem.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Automedicação

Se eu falo 
Ele ouve
De perto, ou por mensagem
Ele fala
Eu ouço
Como se fosse poesia
Ou música
E sempre é arte
Embaçada quando chego perto
Mas se me afasto
Não fica melhor, nem mais clara
vai ver preciso dele perto
Porque de turvo já basta eu
Ele é quente quando sou quente
mas nunca frio
Sempre sóbrio
Ou quase sempre
Corre e acredita, amor
Acredita
Que eu passo a acreditar também
No próprio amor
Que é remédio
Até pra quem não tá doente
E eu que doente
Não preciso de drama
Nem dramin
Só talvez
De você. 

Validade

Devoro em versos o que é verdade
Ainda avesso ao que me diverge
Se de medo mergulha a saudade
Em mar descalço o amor emerge.

Amor em tempos de dólar

Crise pra quem?
Talvez eu não compre mais sapatos
E coma menos na rua
Pra economizar
O dinheiro que não tenho
Não sei se é essa onda
De que não se pode gastar nada
Mas pego as pessoas economizando
Até no amor
Não nos sapatos
Nas palavras
Não nas viagens
O aeroporto tá cheio
E o shopping também
Salvam declarações
E sentimentos
Como se esperassem por um momento
Mais propício
Em que o dólar esteja em R$1,98
Em que passagem pra Gramado custe menos
E a calda do sorvete volte a ser cortesia
Não sei se vale a pena
Guardar melodia e poema
Pra fazer serenata
Em quarto que não seja de aluguel
Espero que amar vire barato
Que essa bolsa de supostos valores
Feche com o amor em alta
E que isso aconteça
Antes do Natal
"A crise aqui é só existencial".

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Desabafo sobre catolicismo e pombos mortos.

Quando eu tinha 8 anos entrou uma menina nova na minha sala na escola. Ela era mais alta que todo mundo e só chamava atenção por isso mesmo. De resto ela era bem normal. Acho que sou amiga dela no facebook. Não vem ao caso.
Um dia minhas amiguinhas vieram me falar de uma coisa que tinha acontecido na reunião de pais e professores. Eu obviamente não sabia o que era já que, com a justificativa de que as mães, muito sem noção e desocupadas, queriam bater papo sobre a vida delas, minha mãe, ocupadíssima, não tinha tempo para tais eventos.
A diretora do colégio, antes de toda reunião, pedia para que todo mundo fizesse uma roda e rezasse um Pai-Nosso. Isso é bem compreensível porque o conto é passado em uma escola de interior com uns duzentos alunos, em que todo mundo era parente ou conhecia os parentes de alguém. Até aí tudo bem, não mataria ninguém ligar o automático e repetir a oração. 

O problema é que o pai da tal novata altíssima se recusou a rezar. O cara disse que era ateu e que frequentava reuniões escolares para saber da filha dele, não para cultuar deuses. Imagina o choque que foi para aquelas mães de colégio particular de salto Anabela, luzes muito claras nos cabelos, unhas postiças e colar estilo terço de ouro no pescoço, quando presenciaram tal cena. Era de se esperar que esse acontecimento virasse assunto na escola toda. A pobre da menina nem sabia o que fazer em relação a algo que para ela era tão colateral. Ela só ignorou a fofoca e seguiu a vida dela. Acho que era Renata o nome dela.
Quando soube disso, pela primeira vez na vida tive consciência de que havia uma possibilidade de Deus não existir. E pasmem: percebi que as pessoas podiam escolher entre acreditar em Deus ou não. Pesado, eu sei. Contei para minha mãe com a esperança de que ela me contasse tudo a respeito dos ateus. Onde vivem. Do que se alimentam. Como se reproduzem. Mas na verdade ela só soltou um "muito errado isso de não acreditar em nada, essa gente quer ser diferente". Imagina a minha decepção. Mas não levem minha mãe a mal. Ela é super inteligente, bem-sucedida e bem resolvida. Só que é difícil contar para uma criança que ela tem liberdade para decidir se quer manter uma tradição de família ou não. Ainda mais quando essa criança já tem uma curiosidade incômoda por tudo que é do contra.
Toda minha família é católica. Tirando uns tios que só são católicos quando o IBGE pergunta, todo mundo vai à igreja pelo menos duas vezes por mês. O povo todo é crismado, casado na igreja. Já foi para Aparecida do Norte, frequenta encontros de casais e por aí vai. Eu mesma fiz minha primeira comunhão e com 15 anos tive minha crisma, conhecendo um professor que me fez me interessar muito por religião. E isso não mudou muito até hoje.
Enfim, eu fiz a coisa toda para chegar a essa conclusão: eu me sinto exclusiva e imensamente incomodada (e até arrependida, mesmo sem ter tido escolha) de ter sido criada em um ambiente católico.
É claro que não posso descartar todos os valores que adquiri com as maçantes leituras da Bíblia. Também admito que percebo uma facilidade muito grande no estabelecimento de relações culturais e analógicas sobre mitos e história geral nas aulas de filosofia na faculdade. Mas o grande problema é que eu estou marcada para o resto da minha vida. E sei que mesmo tendo plena consciência dessa marca, não posso mudá-la. 

É o seguinte: eu sempre tive muito medo de Deus. Se você parar para pensar, o maluco vê tudo o que você faz. Tecnicamente ele sabe o que eu pensava sobre os menininhos na quarta série e ele sabe que eu xingava minha mãe quando ela saía do quarto após uma bronca. E segundo todo mundo, quem mentia, maltratava os irmãos, falava palavrão, fazia tatuagem ou qualquer abominação do gênero já tinha passagem só de ida pro inferno. E ninguém quer ir para o inferno. Porque lá é quente. O padre diz que Lúcifer vai fazer todo mundo queimar e sofrer muito, não sei ao certo que tipo de sofrimento é esse porque parei de frequentar a igreja antes de ler esse livro da Bíblia. A questão é que eu nunca quis ser uma menina boazinha porque eu amava Deus. Eu só tinha medo do inferno.
Uma vez eu e meu primo queimamos um pombo vivo. Quando minha avó descobriu, falou que era pecado e que Deus estava muito triste com a gente. Eu chorei o dia todo e dormi na cama da minha mãe com medo de d'Ele me buscar e me levar para o inferno. Deus era quase um vilão porque era o único que controlava meu senso de certo e errado. Não meus pais. Eles conseguiram se livrar do peso de educar porque era muito mais fácil contar uma história para um ser que crê em tudo que ouve. Agora tenho que conviver com o fato de que todo o meu caráter foi formado através da exploração da minha covardia. E que tem mais um monte de criança sendo criada dessa forma. Não sei se é certo ou errado, mas agora pelo menos acho que consigo decidir isso sozinha.

sábado, 21 de março de 2015

Ser e não ser. Fora de questão.

Tolo foi aquele que me fez estudar filosofia. Eu romantizo até placa de trânsito, como não fazer o mesmo com a história do pensamento? Antes de me perder em suposições e analogias sem sentido, algo há de ficar claro: Eu sou eu, logo não sou uma série de coisas. Tenta me acompanhar, mesmo se você for de exatas. Se eu sou quem eu sou, aqui e agora, dentro do universo, passo a não ser muito mais do que eu sou. Não sou uma pedra, não sou uma dermatologista, não sou o John Lennon e mais um infinito de possibilidades. Eu sou eu, nada mais. Schopenhauer disse que o desejo sexual dos humanos é a pura vontade de diminuir a noção do não ser. E para qualquer poeta de boteco, isso é bonito pra cacete. Pensa bem, por mais pessimista que a noção de vida e morte venha a ser, em algum momento da sua existência insignificante, você inconscientemente decide ser algo maior que você mesmo. E como tenta saciar tal desejo? Procurando alguém. E falhando miseravelmente, porque ainda que fizesse parte de um poliamor infinito, a incapacidade de ser pleno ainda estaria lá. E você, caro ser limitado habitante dessa grande solidificação e abstração constante de plenitude, continuaria frustrado. Mas aí está meu ponto. Se você, sabendo que sua vidinha medíocre é um frame minúsculo de todo o filme da existência e que a distância entre dois vazios é o seu abrir e fechar de olhos, consegue aumentar o seu ato de ser se complementando com alguém com quem você decidiu partilhar uma vida brevíssima e vã, convencendo todo o seu círculo social e até você mesmo da veracidade do que você representa, você fez algo grande. Todos nós somos igualmente pequenos. E se alguém te escolheu para formar algo maior que você mesmo simplesmente para sair da inércia da impossibilidade de ser tudo o que existe, você é grande, e dana-se a filosofia. Dana-se a psicanálise e dana-se a Teoria das Cordas. Só não dana-se Schopenhauer. Nietzsche também não, preciso de vocês pro próximo surto de insuficiência existencial.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Sobre guerras e vôlei.

Um avião caiu e disseram que nele haviam 100 pesquisadores da cura pra AIDS. Os jornalistas falaram de terrorismo. Um pessoal de Israel começou a bombardear a faixa de Gaza, dando continuidade àquela guerra, a que todo mundo já conhece, que vitima crianças, mulheres e homens inocentes. Enquanto isso, minha mãe assiste à final do mundial de vôlei, pedindo a Deus que o Brasil ganhe dos EUA. A falta de opinião formada sobre alguns assuntos polêmicos e o que minha progenitora chama de “pouca fé” me fazem pensar um cado sobre essa energia divina com visão aérea do mundo, colecionadora de fiéis e críticas. Será mesmo que Deus vai tirar seu foco poderoso das preces das crianças, da guerra, da fome, da corrupção, da negligência, da pobreza e dos outros clichês no quesito desgraça, simplesmente pra jogar umas bênçãos sobre o Bernardinho, Bruninho, ou qualquer outro cara que passa fome 0, medo 0, guerra 0 e desgraça 0? Não que eles não mereçam. Eles se esforçam muito. Só foram um exemplo que eu tirei pra Cristo. Também não acho que foi interessante ter mencionado Cristo de novo, mas enfim, a questão não é essa. A questão é que não consigo imaginar uma luz bondosa e livre de pecados que escolhe perder seu tempo com uma partida de vôlei na Itália e não com uma Guerra no Oriente Médio. Religião me deixa confusa. Deixa todo mundo confuso. Principalmente aqueles homens que pensam estar fazendo a coisa certa em matar milhares por sua terra sagrada. A religião os deixa bem confusos também. Eu não sei se Deus existe, mas eu quero muito. Quero muito que ele exista e tanto quanto isso, quero que a guerra acabe. As guerras, na verdade. Nesse meio tempo vou tentar mudar minha oração. Porque a guerra continua. E o Brasil perdeu de 3 sets a 1.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Sobre você.

Prometi pra mim mesma que não escreveria mais sobre você. E que não falaria mais sobre você com ninguém. Não que eu falasse. Ninguém presta muita atenção no que eu falo, cê sabe. Mas já te expliquei que to tentando te esquecer. E li que a maneira mais eficaz de se esquecer uma pessoa é não falando mais nela. Decidi tentar. Esse texto por exemplo, não é sobre você. Esse texto é sobre aqueles sapatos desgastados que você costuma usar no inverno. É sobre o café que você toma todo dia às 6 da tarde. É sobre o jeito que o seu cabelo fica quando pega chuva. Ah, o seu cabelo. Podia escrever um livro todo só sobre o seu cabelo. De como ele fica bonito quando cê sai do banho, de como eu gosto quando esquece de penteá-lo antes de sair de casa, de como eu gosto de passar a mão nele, de leve, até você quase dormir. Cê fica uma graça dormindo, sabia? Ainda mais quando a sua respiração fica bem forte, quase mecânica. Continuo não falando sobre você. Falo sobre seus desenhos. Por que você insiste em dizer que não sabe desenhar? Eu amo todos os seus desenhos, desde os complicados que merecem moldura, até os rabiscos no teu braço. Nem queria comentar sobre seus braços. Eu gosto dos seus braços. Mas poderia gostar mais. Eu gostaria mais deles se eles não tivessem tantas cicatrizes. Gostaria mais deles se não soubesse que, antes de te encontrar, era teu hobby ferir tua pele. Se eu pudesse, passaria todas as tuas feridas pros meus braços, só pra você não ter que olhar mais pra elas, e se lembrar do por quê delas estarem ali. E faria qualquer coisa pra te ver usando mangas curtas de novo, apesar de você ficar um amor com mangas compridas. Mas esse texto não é sobre você. É sobre aquele jeans meio rasgado que você usa até o meio da canela. Queria escrever numa faixa bem grande que eu amo o jeito que você se veste e pendurar tal faixa na porta da sua casa. Acho que o mundo todo devia parar pra prestar atenção no que você veste toda vez que sai de casa de manhã. E também queria tomar posse de toda a sua coleção de óculos escuros. Como eu já disse antes, esse texto não é sobre você, meu bem. É sobre todos os álbuns do The Smiths que você tem. É sobre todas as 64 pintas espalhadas pelo seu corpo (eu contei, lembra?). É sobre como você pronuncia algumas palavras de um jeito engraçado. É sobre as covinhas que você tem mas costas. Sobre a cor dos teus olhos e de como sua boca está sempre muito vermelha, com o se estivesse com frio, ou tivesse acabado de comer açaí. É sobre como parece que te tiraram de um seriado de comédia dos anos 80. E de como você ama músicas de tal época. Mas não faz mais diferença, porque to tentando te esquecer. E não falo mais de ti, só pra você saber.