Quando eu tinha 8 anos entrou uma menina nova na minha sala na escola. Ela era mais alta que todo mundo e só chamava atenção por isso mesmo. De resto ela era bem normal. Acho que sou amiga dela no facebook. Não vem ao caso.
Um dia minhas amiguinhas vieram me falar de uma coisa que tinha acontecido na reunião de pais e professores. Eu obviamente não sabia o que era já que, com a justificativa de que as mães, muito sem noção e desocupadas, queriam bater papo sobre a vida delas, minha mãe, ocupadíssima, não tinha tempo para tais eventos.
A diretora do colégio, antes de toda reunião, pedia para que todo mundo fizesse uma roda e rezasse um Pai-Nosso. Isso é bem compreensível porque o conto é passado em uma escola de interior com uns duzentos alunos, em que todo mundo era parente ou conhecia os parentes de alguém. Até aí tudo bem, não mataria ninguém ligar o automático e repetir a oração.
O problema é que o pai da tal novata altíssima se recusou a rezar. O cara disse que era ateu e que frequentava reuniões escolares para saber da filha dele, não para cultuar deuses. Imagina o choque que foi para aquelas mães de colégio particular de salto Anabela, luzes muito claras nos cabelos, unhas postiças e colar estilo terço de ouro no pescoço, quando presenciaram tal cena. Era de se esperar que esse acontecimento virasse assunto na escola toda. A pobre da menina nem sabia o que fazer em relação a algo que para ela era tão colateral. Ela só ignorou a fofoca e seguiu a vida dela. Acho que era Renata o nome dela.
Quando soube disso, pela primeira vez na vida tive consciência de que havia uma possibilidade de Deus não existir. E pasmem: percebi que as pessoas podiam escolher entre acreditar em Deus ou não. Pesado, eu sei. Contei para minha mãe com a esperança de que ela me contasse tudo a respeito dos ateus. Onde vivem. Do que se alimentam. Como se reproduzem. Mas na verdade ela só soltou um "muito errado isso de não acreditar em nada, essa gente quer ser diferente". Imagina a minha decepção. Mas não levem minha mãe a mal. Ela é super inteligente, bem-sucedida e bem resolvida. Só que é difícil contar para uma criança que ela tem liberdade para decidir se quer manter uma tradição de família ou não. Ainda mais quando essa criança já tem uma curiosidade incômoda por tudo que é do contra.
Toda minha família é católica. Tirando uns tios que só são católicos quando o IBGE pergunta, todo mundo vai à igreja pelo menos duas vezes por mês. O povo todo é crismado, casado na igreja. Já foi para Aparecida do Norte, frequenta encontros de casais e por aí vai. Eu mesma fiz minha primeira comunhão e com 15 anos tive minha crisma, conhecendo um professor que me fez me interessar muito por religião. E isso não mudou muito até hoje.
Enfim, eu fiz a coisa toda para chegar a essa conclusão: eu me sinto exclusiva e imensamente incomodada (e até arrependida, mesmo sem ter tido escolha) de ter sido criada em um ambiente católico.
É claro que não posso descartar todos os valores que adquiri com as maçantes leituras da Bíblia. Também admito que percebo uma facilidade muito grande no estabelecimento de relações culturais e analógicas sobre mitos e história geral nas aulas de filosofia na faculdade. Mas o grande problema é que eu estou marcada para o resto da minha vida. E sei que mesmo tendo plena consciência dessa marca, não posso mudá-la.
É o seguinte: eu sempre tive muito medo de Deus. Se você parar para pensar, o maluco vê tudo o que você faz. Tecnicamente ele sabe o que eu pensava sobre os menininhos na quarta série e ele sabe que eu xingava minha mãe quando ela saía do quarto após uma bronca. E segundo todo mundo, quem mentia, maltratava os irmãos, falava palavrão, fazia tatuagem ou qualquer abominação do gênero já tinha passagem só de ida pro inferno. E ninguém quer ir para o inferno. Porque lá é quente. O padre diz que Lúcifer vai fazer todo mundo queimar e sofrer muito, não sei ao certo que tipo de sofrimento é esse porque parei de frequentar a igreja antes de ler esse livro da Bíblia. A questão é que eu nunca quis ser uma menina boazinha porque eu amava Deus. Eu só tinha medo do inferno.
Uma vez eu e meu primo queimamos um pombo vivo. Quando minha avó descobriu, falou que era pecado e que Deus estava muito triste com a gente. Eu chorei o dia todo e dormi na cama da minha mãe com medo de d'Ele me buscar e me levar para o inferno. Deus era quase um vilão porque era o único que controlava meu senso de certo e errado. Não meus pais. Eles conseguiram se livrar do peso de educar porque era muito mais fácil contar uma história para um ser que crê em tudo que ouve. Agora tenho que conviver com o fato de que todo o meu caráter foi formado através da exploração da minha covardia. E que tem mais um monte de criança sendo criada dessa forma. Não sei se é certo ou errado, mas agora pelo menos acho que consigo decidir isso sozinha.
to realmente não esperando que comentar em dois posts de uma vez seja uma coisa de maluco hahaha
ResponderExcluireu passei por essa crise várias vezes. sou evangélico de berço, quase predestinado a ser pastor (que acabei não sendo, veja só). existe toda uma explicação sociológica pra tudo isso, mas hoje, assistindo um documentário que nada tem a ver com religião, eu me toquei que a humanidade em geral não saiu da papinha (inclusive, isso tá na Bíblia hahaha). o medo é pregado porque o amor tem efeitos colaterais, tipo a gente não aceitar. e como é que um pai ou mãe - especialmente os não versados na retórica - vai sequer considerar a possibilidade da escolha do filho levar ele a se foder proverbialmente? eu entendo, principalmente se vc considerar essa lógica multiplicada por uma milha de gerações.
sorte ou efeito colateral, eu fiz o caminho oposto; eu me liguei que, se Deus ama, ele não é violento ou sádico como logicamente se conclui. pra mim, é mais lógico que o discurso foi torcido no caminho, conscientemente ou não. com isso, toda minha vida acabou centrada nesse grande sentimento de que amar quer dizer não só querer bem, mas tbm querer o bem. pode ser até que não haja inferno, isso eu não ouso dizer com ganho de causa. eu prefiro não misturar céu e inferno no porque eu acredito em Deus. se o céu existe, eu espero que tenha um lugar pra mim lá, pelo amor de Deus.
sei lá, achei interessente compartilhar uma versão reduzida de uma crise parecida.
e avisa pro teu padre: o inferno, segundo o little black book of dilemma, é o castigo de Satanás, não o reino dele. ele tá lá pra pegar fogo tbm.